O PROPÓSITO DA ANÁLISE

O PROPÓSITO DA ANÁLISE

Expor o propósito da terapia analítica implica expor os objetivos da cura psicanalítica. Comecemos pelo princípio. Sigmund Freud expôs que a psicanálise era um método para investigar o psiquismo humano. Os pacientes com sofrimento psíquico, no início dos anos 20, não encontravam métodos de alívio que realmente funcionavam. Estes pacientes esperavam que algo os curasse de seus sofrimentos e de seus sintomas mentais. Certamente quando em 1893 aparece a Psicanálise, a ‘cura pela palavra’ era um novo método que oferecia esperanças. O diálogo psicanalítico era muito especial. Era um diálogo sem juízo de valor e, portanto, não tem absolutamente nenhuma censura moral. Assim, oferecia a possibilidade para que acontecesse a catarse, a reconstrução das memórias de infância, a revisão e resignificação dos traumas infantis (sexuais ou não). Isto seria alcançado por meio da transferência e tudo isso dava a oportunidade para o desaparecimento dos sintomas.

No fundo, foi o que os pacientes queriam e esperavam. Então lograram alívio e a Psicanálise começou a ter popularidade. Infelizmente deste desenvolvimento se estabeleceram ideias errôneas. Primeiro, a ideia de que a terapia psicanalítica era algo exclusivo da prática médica. E segundo, que a psicanálise era uma forma especial de terapia. Nos últimos cem anos de prática psicanalítica, ambas as ideias tem sido corrigidas e modificadas. Em primeiro lugar, a análise pode ser praticada por qualquer pessoa talentosa que trabalhe o inconsciente e também foi treinado ou devidamente treinado por um Instituto de Psicanalise.

E segundo, a psicanálise não se pratica como uma forma de terapia. O verdadeiro objetivo da Psicanálise é a busca da verdade interior do indivíduo. Como acertadamente expõe Wilfred Bion, em 1967: “a busca da verdade é essencial para o crescimento mental. Tão essencial como é o alimento que consumimos para alcançar o crescimento orgânico do cérebro. Sem a verdade sobre si mesmo, a mente não se desenvolve, morre de inanição”’… A psicanálise fornece um método para que o sujeito lute contra suas próprias resistências. Uma luta para adquirir algo de sua verdade interior que estava perdida. Ao fazer isso, o sujeito expande as possibilidades de sua mente e certamente evolui e muda seus sintomas. Alguns equivocadamente observam esse fenômeno como cura de algo, não é.

Digo isto porque não há nada para se curar.

Para que o terapeuta de orientação psicanalítica consiga fazer esta tarefa de ajudar o outro a tomar consciência de sua verdade perdida, tem que estar, dentro do possível, em uma atitude neutra – não desejante -, para então assim poder escutar sem prejuízos o material mental que o paciente irá lhe oferecer. Freud chamava a isto de ‘atenção flutuante’. Wilfred Bion se referiu a este mesmo assunto como: ‘a capacidade do terapeuta analista poder colocar-se em um ponto sem desejo e sem memória’. Lacan dizia que o analista deve barrar-se como sujeito desejante para poder ocupar o lugar de analista.

Esta capacidade só se adquire depois de muitos anos de análise pessoal, já que ao resolver seus conflitos neuróticos o terapeuta estará mais ou menos livre de necessidades neuróticas inconscientes e de sérias dificuldades de personalidade, estas que impedem ou litam sua capacidade de neutralidade frente ao material mental que emerge do paciente. Nota: A presença de conflitos neuróticos inconscientes não significa a presença de alguma enfermidade.

Quando o terapeuta psicanalítico tem desejos pessoas de ser um curador, pode-se encontrar-se em uma posição difícil na qual o objetivo consciente na terapia seria a de curar o seu paciente. Em seguida, ele vai encontrar-se rigidamente fixo e tendencioso a cumprir esse objetivo que naturalmente inclui o que para o próprio terapeuta é seu próprio conceito de saúde.
Simplesmente, na terapia analítica as coisas não são desta maneira. A cura das dificuldades neuróticas é importante, mas o objetivo é ajudar o paciente a buscar e encontrar aspectos de sua própria verdade interior, que é o que verdadeiramente lhe permitirá evoluir. Encontrar aspectos desta verdade o leva a estados de integração mental, estados de maior desenvolvimento, de uma vivência de identidade e eventualmente adquirir o que esta determinada pessoa considera ser sua própria cura.

Em relação a essas ideias, recordemos o que Sigmund Freud escreveu em 25 de janeiro de 1909. Este dia Freud escreveu uma carta a Carl Gustav Jung e ali se dizia o seguinte: …’para salvar a minha consciência, eu sempre disse a mim mesmo, que acima de tudo, não se trata de curar, que eu me conforme com aprender algo sobre a mente e também conquistar a vida. Creio que este tem sido os meus propósitos conscientes mais úteis nos exercícios da psicanálise’… Aqui quando Freud diz: ‘me conformo com aprender algo’, nos está dizendo que se trata de preservar sua neutralidade, de verdadeiramente escutar o outro, de suspender seus próprios desejos, de chegar a uma ‘atenção flutuante’ que é o que um ultima instancia irá permitir a análise do inconsciente.

Se o paciente percebe um desejo do terapeuta de que curá-lo é possível, que ao perceber este desejo, o paciente chegue a uma pseudo cura ou falso desenvolvimento. Isso ocorre quando o paciente está disposto a agradar e satisfizer os desejos do terapeuta. Se assim ocorre, a tomada de consciência deste fenômeno transferencial e de resistência poderia ainda representa para o paciente um benefício, porque adquiriria um pedaço de sua própria vida interior: ‘a de estar pronta a agradar o outro’. Assim, todas as coisas que ocorrem no processo da terapia, se são compreendidas e tornadas conscientes se convertem em uma ajuda ao processo de integração mental e do crescimento psíquico. Como vemos, curar não é o objetivo da terapia, sem um produto secundário que ocorre graças a integração mental e a busca da verdade.

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